Não é uma árvore
O “tronco” é um pseudocaule: bainhas de folha enroladas uma na outra. A bananeira é a maior planta herbácea do mundo, sem uma fibra de madeira. Frutificou, morre — quem continua é o rebento que nasce ao lado.
Musa spp. · Musaceae
Botanicamente é uma baga, nasce numa erva gigante — não numa árvore — e é a fruta mais consumida do planeta. Quase toda banana que você já comeu é um clone.
Quase tudo que se assume sobre a bananeira está errado — e o motivo é interessante.
O “tronco” é um pseudocaule: bainhas de folha enroladas uma na outra. A bananeira é a maior planta herbácea do mundo, sem uma fibra de madeira. Frutificou, morre — quem continua é o rebento que nasce ao lado.
As variedades comestíveis são triploides estéreis: aquelas pintinhas pretas no miolo são óvulos que nunca viraram semente. Sem semente, sem reprodução sexuada — cada bananal é propagado por muda, ou seja, por clonagem.
Praticamente toda banana cultivada é cruzamento de Musa acuminata (genoma A, doçura) com Musa balbisiana (genoma B, rusticidade). A Nanica é AAA; a Prata, AAB; a Terra, também AAB, com mais amido.
O supermercado do hemisfério norte vende uma. O Brasil come várias — e cada uma tem um destino certo na cozinha.
Cavendish
A do supermercado e a única que o mundo exporta em escala. Casca fina, doce, aguada.
Pome
Menor e mais firme, com leve acidez. A preferida do brasileiro pra comer na mão.
Silk
Perfume adocicado que lembra maçã. Frágil, cara e vítima preferida do mal-do-panamá.
Plantain
Amido puro, não se come crua. Vai pra frigideira, pro forno ou pro pirão.
Sucrier
Do tamanho de um dedo, açucarada. Rende pouco, some rápido da feira.
Figo-cinza
Robusta e resistente a praga. Textura mais seca, ótima pra doce e banana-passa.
Amadurecer é o amido virando açúcar, disparado pelo próprio etileno da fruta. Verde tem amido resistente que passa reto pelo intestino delgado; madura tem açúcar simples. É a mesma banana em dois alimentos diferentes.
Amido resistente no máximo. Cozinha, frita, vira farinha.
Firme e pouco doce. Boa pra salada de fruta que não pode desmanchar.
Ponto de equilíbrio entre amido e açúcar. É a banana de comer.
Doce no auge, digestão fácil. Vitamina, panqueca, sorvete.
Quase toda açúcar. Bolo, pão de banana, doce de banana.
Banana crua, polpa. Uma unidade média equivale a cerca de 118 g.
| Nutriente | Por 100 g | Unidade média |
|---|---|---|
| Energia | 89 kcal | ~105 kcal |
| Carboidratos | 22,8 g | ~27 g |
| Açúcares | 12,2 g | ~14 g |
| Fibra alimentar | 2,6 g | ~3 g |
| Proteína | 1,1 g | ~1,3 g |
| Gordura | 0,3 g | ~0,4 g |
| Potássio | 358 mg | ~422 mg |
| Vitamina B6 | 0,37 mg | ~25% VD |
| Vitamina C | 8,7 mg | ~11% VD |
Valores de referência da base do USDA. VD = valor diário de referência para adulto.
Até os anos 1950, a banana de exportação era a Gros Michel. O fungo Fusarium oxysporum f. sp. cubense — o mal-do-panamá — varreu os bananais do Caribe e da América Central. Como todo pé era geneticamente idêntico, o que matava um matava todos.
A indústria trocou pela Cavendish, resistente àquela raça do fungo. Deu certo por meio século. Aí apareceu a raça TR4, que a Cavendish não resiste, e que já saiu da Ásia e chegou às Américas. A resposta em curso é a mesma de sempre: diversificar cultivares e melhorar geneticamente — só que agora contra o relógio.
Por causa do potássio-40 natural. A dose é tão pequena que virou unidade didática informal — a “dose equivalente de banana” — para explicar radiação sem assustar ninguém.
O gag de circo tem base física: sob pressão, as células da casca liberam um gel de polissacarídeos que derruba o atrito para algo perto do gelo. Renderam um Ig Nobel em 2014.
A inflorescência aponta pra baixo, mas cada fruto se curva contra a gravidade em direção à luz — geotropismo negativo. Daí o formato de meia-lua.
A banana é uma fábrica de etileno. Do lado do abacate ela acelera o amadurecimento; na fruteira fechada, apodrece a vizinhança inteira mais rápido.